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  ANA BATISTA


  • Ana Cristina Marramaque Batista, é o nome completo da toureira Ana Batista que conheci com 9 anos.

    No dia 18 de Junho de 1987, por coincidência o dia do seu e do meu aniversário, fui assistir a um espectáculo de variedades taurinas na praça de Salvaterra de Magos a convite do Dr. A. R. Brito Paes, que dias antes me tinha apresentado o pai desta miúda, hoje mulher e figura do toureio por direito próprio.

    Ainda hoje guardo na memória a actuação dessa figura frágil, que me impressionou pelas desenvoltura, decisão, valentia e postura a cavalo, sendo que tudo isto sobressaia tanto mais, quanto mais o velho cavalo “Chinelo” que montava era difícil (já o era em novo) e agora por mais, por estar limitado pela idade.

    No fim do espectáculo em amena conversa, foi me pedido pelo dr. Brito Paes na presença do sr. João Batista para tomar conta da pequena toureira no que tocava ao ensino do toureio a cavalo e á administração artística. Fiz notar que me tinha afastado do apoderamento – julgava eu que para sempre – mas fiquei de pensar e durante uns dias fui vê-la montar.

    Impressionou-me a constância dos atributos que tinha visto no Festival, aos quais juntei, como fruto das minhas observações:

    1º - Uma louca aficcion.

    2º - Uma inteligência invulgar para a idade.

    3º - Uma ânsia rara de querer aprender aliada a uma vontade férrea.

    4º - Uma humildade total no reconhecimento das suas naturais limitações

    Como complemento deste quadro pairava a figura de seu pai, trabalhador incansável, que tinha vencido barreiras bem difíceis até chegar ao status económico estável que usufruía nesse momento, mas que não alinhava em loucuras, porque sabia o que lhe custava a vida… nem eu lhas propunha. Grande homem o sr. João Batista…

    Posto isto, pensei não muito e decidi aceitar o convite.

    Assim começou uma ligação que durou 10 anos sempre em crescendo, com passos seguros, e que só terminou porque a vida precipitou o meu regresso ás origens, á minha cidade de Coimbra.

    Desde o primeiro dia, estabelecemos que não houvesse a preocupação em tourear muito, mas sim bons espectáculos, atendendo a que como se sabe muitos desses são montados com rezes corridas e por isso impróprias para o toureiro. Por ser assim houve anos que foram quase tantos os espectáculos recusados como os que a Ana toureou.

    Durante os dez anos em que a acompanhei, quero destacar quatro datas importantes na sua carreira.

    1ª – A sua apresentação em França na Praça histórica de “Saintes Maries de la Mére” catedral do toureio a cavalo neste país.

    Alternando com cinco profissionais toureando um TOIRO, cotou-se como destacada triunfadora.

    Recordo desse dia a conferencia de imprensa no hotel “Mas de Riége”, quando no meio da confusão me perguntou com a ingenuidade dos 15 anos, se devia ou não aceitar uma taça de Chanpagne que lhe estavam a oferecer, numa demonstração cabal de quem queria conhecer os terrenos que pisava.

    2ª – Pamplona “San Fermin” novilhada matinal, a sua participação foi digna, não se impressionando por estar em tão importante feira.

    Os cavalos chegaram de véspera e ficaram em casa do “P. Hermoso de Mendonça” a quem a Ana tinha emprestado o cavalo “Pérola”, o seu melhor cavalo á época, com o qual este toureiro matou os toiros em Valencia, Sevilha e Madrid, arrancando para a sua primeira temporada em grande.

    Nessa altura era vedeta com o rejoneador Navarro o “Cagancho”, cavalo com o ferro João Batista pai da Ana, nascendo desse facto uma boa amizade.

    3º - Corrida com os enormes toiros da “Qt. Da Foz” no Campo Pequeno, em que toureando com cinco cavaleiros de alternativa – tocou-lhe o maior toiro -, onde se sagrou triunfadora, impressionando toda a gente, pela classe, sentido toureiro e maturidade no decorrer da lide.

    Brindou a lide A “Conchita Citron”.

    Esta actuação valeu-lhe o prémio da prestigiada “Associação Portuguesa de Tauromaquia”, de  que eram mentores entre outros o Maestro Mário Coelho, Joaquim Tapada, Suzana Santos e Mauricio do Val. Tinha então só 16 anos.

    4ª – Apresentação do Quarteto a que chamaram de “Spice girls do toureio a cavalo”, que marcou uma maratona de mais de trinta corridas por toda a Espanha.

     

    Todos estes passos da sua carreira foram dados com segurança, a que é justo juntar a dificuldade de ter nessas épocas em que trabalhamos juntos, uma quadra reduzida e sem vedetas, o que só valoriza o seu labor.

    Chegou a alternativa.

    A partir desse momento a carreira foi permanentemente em crescendo até chegar ao patamar de fazer parte de qualquer cartel, não por ser mulher mas sim pelo seu valor intrínseco.

    Toureou já toiros das mais importantes ganadarias Espanholas, Francesas e Portuguesas, alternou com as maiores figuras do toureio, sofreu colhidas de arrepiar após as quais reapareceu mais forte, e assim chegou onde chegou.

    Os anos de trabalho em comum, feitos em plena sintonia, levaram a um pleno de

    cumplicidades. Lutámos contra muita coisa e muita gente, restando desses tempos uma profundíssima amizade, que plasma como uma das melhores recordações da minha vida de taurino.

    Tenho o maior orgulho a realidade de ser seu amigo…

    Quero ainda afirmar categoricamente que a Ana, além do tourear, foi bafejada e cultivou o ser toureira fora da praça, juntando assim a graça ao senhoril bom, de forma natural, sem alardes…

    Hoje é respeitada por toda a gente – publico, colegas e o “mundillo” - e por isso, a menina de Salvaterra que conheci com nove anos, vai ficar de certeza e naturalmente na História, como uma grande toureira e uma grande senhora.

    João Cortesão

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